Rubik – Estamos aqui Yuri, no mesmo lugar que nos encontramos naquela noite, um pasto vazio, sem nada mais, talvez antes um grande campo de colheita para quem aqui habitava a noite escura e fria onde só a lua nos iluminava, e as duas cadeiras velhas de madeira continuam aqui. E agora uma manhã fria e calma de inverno. Diferente daquela noite agora o sol nos ilumina, o fim do outono para o começo do inverno. Por que acha que estamos aqui?
Yuri – Se eu e você nos conhecemos aqui, talvez esse seja o fim.
Rubik – Mas é o começo para você.
O vento assopra mais forte contra os dois homens, eles sentem a brisa do inverno no rosto e as gotas da garoa respingar em suas roupas.
Os dois sentam nas duas velhas cadeiras, ainda molhadas, a cadeira ruge, como madeira molhada e muito usada e se encaram por dois minutos.
Yuri arrancar uma faca militar do seu avó já falecido.
Rubik – O que você está fazendo com seu olho direito?
Então Yuri corta seu olho direito e grita de dor, o sangue cai por toda a grama verde, o que era antes uma paisagem feita por Van Gogh, agora se tornou um filme triste de horror.
O sangue pinga pela perna de Yuri e lágrimas do seu olho esquerdo caem.
Rubik só observa, com apenas um olho
Yuri – Arrancando meu olho, não aguento mais olhar as coisas horríveis do mundo com ele, toda vez que eu abro ouço pessoas gritando, pedindo ajuda e chamando meu nome
Rubik – Você acha que isso vai melhorar? Você ainda irá sentir a dor disso no peito.
Yuri – Então é pra mim furar meu peito?
Rubik – Você não faria isso.
Rubik – Se sente melhor sem o olho?
Yuri – Está doendo, você acha que eu vou morrer?
Rubik – Não vai.
Yuri – Mas eu quero isso.
Rubik – Mas você ama a vida.
Rubik – Coloque esse pano no olho.
Yuri coloca o pano que o homem tirou do bolso do sobretudo marrom no olho, o sangramento para, mas encharca o pano de sangue.
Rubik – O que voce é?
Yuri – Uma máquina, estou me tornando igual eles eu vivo preso dentro disso, não sei quem eu sou, estou perdido e sangrando.
Rubik – Você não é uma máquina, é um humano este é o seu lugar, a natureza, o mundo, a vida.
Yuri – Eu não mereço a vida.
Rubik – Todos merecemos viver, deixe a dança da vida erguer-se em seu corpo, dance e deixe isso fluir em seu corpo, estamos na natureza a verdadeira face do homem, este é seu lugar.
Yuri, nós pertencemos a isso, um homem quando é cremado e é jogado ao mar ele é libertado a natureza com o vento.
Nós fazemos parte disso Yuri, é daqui que viemos e é aqui que partiremos.
Yuri – O que eu faço? Como vou perdoar as pessoas? Como elas vão me perdoar?
Rubik – Sempre é hora de perdoar, o mundo faz coisas cruéis com todos nós.
Então o homem cuja todos chamam de Rubik, barbudo, com boina marrom, um metro e oitenta, uma bota velha de camurça, sobretudo marrom e blusa escura, o homem que não tinha um olho caminha pelo pasto, desaparecendo na neblina.
A garoa se intensifica Yuri chora e se ajoelha molhando seus joelhos, suas lágrimas não são pela dor do seu olho perdido e pelo sangue derramado é pelo homem que o guiou até ali, um homem como ele queria ser.
No fim ele percebeu que aquele homem sempre quis seu bem, Yuri viu aquele homem como seu pai.
A chuva se intensifica limpando todo o sangue e todas suas magoas.
Yuri tinha encontrado a si mesmo, no seu sonho.